Arquitetura do Cosmo


Esta lição é composta sobretudo de simples desenhos. O motivo é que a ciência,
antes de ser um conjunto de experimentos, medições, matemática e deduções rigorosas,
constitui-se principalmente de visões. A ciência é, antes de tudo, atividade visionária. O
pensamento científico se nutre da capacidade de “ver” as coisas de modo diferente de
como elas eram vistas antes. Sem pretensões, quero tentar oferecer uma degustação desta
viagem entre visões.


Representação do cosmo como foi concebido durante milênios: embaixo a Terra,

em cima o Céu. A primeira grande revolução científica, realizada 26 séculos atrás por
Anaximandro, que tentou compreender como é possível que o Sol, a Lua e as estrelas

girem ao nosso redor, substitui essa imagem do cosmo por esta outra:



Agora o Céu está totalmente ao redor da Terra, não somente acima, e a Terra é
um grande seixo que flutua suspenso no espaço, sem cair. Alguém (talvez Parmênides,
talvez Pitágoras) não demora a perceber que a forma mais razoável para esta Terra que
voa, para a qual todas as direções são iguais, é uma esfera, e Aristóteles descreve
argumentos científicos convincentes para confirmar a esfericidade da Terra e dos céus em
torno da Terra, nos quais correm os astros celestes. Eis a imagem do cosmo que resulta
disso:




É o cosmo descrito por Aristóteles em seu livro Sobre o céu, e a imagem do

mundo que permanecerá característica das civilizações em torno do Mediterrâneo, até o
fim da Idade Média. É essa imagem do mundo que Dante estuda na escola.
O salto seguinte é dado por Copérnico, inaugurando aquela que é chamada a
grande revolução científica. O mundo de Copérnico não é muito diferente do de

Aristóteles:



Mas há uma diferença fundamental: retomando uma ideia já considerada na
Antiguidade, e depois abandonada, Copérnico compreende e mostra que nossa Terra
não está no centro da dança de planetas, e sim o Sol. Nosso planeta se torna um como os
outros. Gira em grande velocidade sobre si mesmo e em torno do Sol.
O avanço do conhecimento não se detém. Nossos instrumentos logo se
aperfeiçoam, e aprendemos que o sistema solar não é senão um entre muitíssimos, e que
nosso Sol é simplesmente uma estrela como as outras. Um grãozinho infinitesimal em

uma imensa nuvem de estrelas, formada por 100 bilhões de estrelas, a Via Láctea:



Mas, por volta dos anos 1930, as medições precisas feitas pelos astrônomos das
distâncias de nebulosas espirais — nuvenzinhas esbranquiçadas entre as estrelas —
mostram que também a Via Láctea, por sua vez, não é mais do que um grão de poeira em
uma imensa nuvem de galáxias, centenas de bilhões de galáxias, que se estendem a perder
de vista até onde os mais potentes dos nossos telescópios conseguem alcançar. Agora o
mundo se tornou uma extensão uniforme e ilimitada. A figura que se segue não é um
desenho: é uma fotografia tirada pelo telescópio Hubble, em órbita da Terra, que mostra
a imagem do céu mais profundo que conseguimos ver com o mais potente dos nossos
telescópios. A olho nu, seria um pedacinho extremamente pequeno de um céu onde nada
parece existir. Ao telescópio, parece uma poeira de galáxias muito distantes. Cada
pontinho e mancha nessa imagem é uma galáxia com cerca de 100 bilhões de sóis
semelhantes ao nosso. Há poucos anos, vimos que a maior parte desses sóis têm planetas
ao seu redor. Portanto, no universo existem milhares de bilhões de bilhões de planetas
como a Terra. E, em qualquer direção para a qual se olhe, o que aparece é isto:

Mas essa uniformidade ilimitada, por sua vez, é apenas aparente. Como ilustrei
na primeira lição, o espaço não é plano, é curvo. A própria trama do universo, salpicada
de galáxias, devemos imaginá-la movida por ondas semelhantes às ondas do mar, às vezes
tão agitadas a ponto de criar os vazios que são os buracos negros. Voltemos então às
imagens desenhadas, para representar este universo sulcado por grandes ondas.
E, por fim, hoje sabemos que este cosmo imenso, elástico e constelado de
galáxias cresceu por 13,7 bilhões de anos, emergindo de um ponto muito quente e
denso. Para representar essa visão, já não devemos desenhar o universo, e sim desenhar a
história inteira do universo. Ei-la, esquematizada:


O universo nasce como uma bolinha e depois se expande até suas atuais
dimensões cósmicas. A figura anterior é nossa imagem atual do universo, na maior escala
que conhecemos.
Há mais alguma coisa? Havia algo antes? Talvez sim. Falarei disso daqui a duas
lições. Existem outros universos semelhantes, ou diferentes? Não sabemos.


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